"Desculpa o horário mais acabei de ver uma postagem no grupo do Facebook… onde você falou que tá gravando uma reportagem mostrando os presídios do Brasil durante a pandemia. Fais alguns meses que eu saí do presídio"

Eram 6 da manhã de uma segunda-feira quando essa mensagem apareceu no celular do estudante de jornalismo Guilherme Santiago. Naquele 23 de novembro de 2020, as esperanças de entrevistar alguém que tivesse vivenciado o sistema carcerário durante a pandemia já tinham se esgotado. Mas isso mudou com esta mensagem. Quem escrevia era Wallas Felippe Gonçalves, de 24 anos, egresso do cárcere e que se disponibilizava a conversar com a nossa produção.

Por meio de mensagens trocadas pelo whatsapp, descobrimos que Wallas é natural de Aparecida, município do interior do estado de São Paulo e conhecido por ser um local de fé e devoção à Nossa Senhora de Aparecida. E fé é o que não falta para quem ficou atrás das grades, por 3 anos e 2 meses, no Centro de Detenção Provisória Dr. Félix Nobre de Campos, em Taubaté.

Isso porque ele faz parte de um universo de quase 800 mil detentos brasileiros que durante a pandemia foram abandonados. Não pelas famílias, mas sim pelo Estado. Se antes as condições sanitárias e o respeito aos direitos humanos já não eram notáveis, a pandemia expôs as mazelas de um sistema que parece existir para falhar. 

A notícia do vírus chegou pela televisão, mas os telejornais não foram suficientes para transmitir a gravidade e urgência da situação. A ficha só caiu quando surgiram algumas especulações de suspensão de visitas.

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E o cenário de pânico se alastrou com a mesma velocidade que o vírus fora das grades. Como um telefone sem fio, surgiram rumores de outras unidades com casos de infecção pelo coronavírus.

 
"Muitos começaram a ficar desesperados, tiveram companheiros que começaram a receber notícias que um ente querido havia falecido, começou a dar um estado de pânico e a unidade que a gente estava também não dava apoio"

 

A solução encontrada por Wallas e outros detentos para se proteger foi rasgar as próprias camisas na tentativa de construir máscaras. A cena lembrava aquelas imagens de rebeliões nas quais os detentos cobrem o rosto com panos rasgados para não se identificarem. A diferença é que, desta vez, a rebelião acontecia dentro do peito que batia forte e acelerado com medo de morrer contaminado pelo coronavírus. 


Em março de 2020, dois meses antes de Wallas ser liberto, as visitas foram suspensas no estado de São Paulo. Agora, o medo dividia espaço com a saudade. Sem as famílias, os presidiários ficaram dependentes daquilo que o Estado oferece. Ou melhor: reféns da ausência daquilo que o sistema deveria oferecer. Produtos de higiene pessoal, materiais para a limpeza da cela e alimentação eram insuficientes, quando não faltavam.  


"A visitação é tudo para nós lá dentro, é sagrada para levar nossa alimentação. Querendo ou não, nós somos seres humanos, a gente sente saudade da nossa família e de poder dar um abraço. Então foi muito difícil"


Se atrás das grades o companheirismo e a coletividade orientam as relações entre os encarcerados, fora delas as opiniões divergem entre aqueles que se dedicam a estudar a situação dos presídios brasileiros.


Carolina Diniz é advogada do Programa de Enfrentamento à Violência Institucional, da organização não governamental Conectas Direitos Humanos. Nossa produção conversou com a advogada via chamada de vídeo e, muito solícita, respondeu às nossas dúvidas sobre a situação do cárcere em meio a pandemia de Covid-19. Ela nos explicou sobre o "jumbo", um conceito comum para aqueles que estão acostumados com as filas nas portas dos presídios, mas estranho para aqueles que estão distantes deste mundo: "é quando a família pode encaminhar uma cesta de alimentos, roupas e produtos de higiene", explica. 


"Sem isso, quando a pessoa está presa e não recebe, fica mais difícil a situação lá dentro. Porque a comida é insuficiente, muito ruim. A unidade oferece um uniforme logo que a pessoa entra e nada mais. Ter que lavar roupas nessas condições é muito difícil, mais ainda mantê-las limpas. As famílias mandam cigarros, álcool-gel e desinfetantes para limpar a cela até. Ter um ente querido encarcerado gera um ônus financeiro para a família. Quem está lá dentro e recebe, acaba trocando também e sobrevive com isso. Com a pandemia, muitos deixaram de enviar o jumbo e as pessoas ficaram mais frágeis"


Já para Sérgio Bassit, diretor do grupo de Planejamento de Ação e de Saúde, o cenário seria mais devastador se a suspensão das visitas não tivesse acontecido e garante que diversas orientações de higiene foram feitas dentro das unidades prisionais do estado de São Paulo.


Mas não foi isso que foi visto na prática. Ou, pelo menos, não na unidade em que Wallas estava. Lá, a bomba-relógio não parou em nenhum momento. Ao contrário. Entre os muros de concreto e os portões de aço, quase que se ouvia o barulho do estrondo. O medo e a saudade impulsionavam as batidas no coração dos detentos no mesmo compasso do tic-tac da bomba. Lutar pela própria vida parecia ser a única saída. 


Rebeliões e motins, deflagrados no auge da tensão entre agentes penitenciários e os presos, ganharam mais força com a suspensão da visita das famílias e, consequentemente, com a falta de entrega do "jumbo". Era o anúncio da tempestade que se aproximava. E a solução? "Se molhar na chuva", responde Wallas. 

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Dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), um estudo estatístico sobre o sistema prisional brasilerio, mostram que, em 2019, houve um déficit de 312.925 vagas no sistema prisional brasileiro. Isso significa que a população privada de liberdade supera em pouco mais de 300 mil a quantidade de vagas ofertadas pelo sistema. 


Por isso, o risco de contrair a doença dentro dos presídios continua alto mesmo sem as visitações, uma vez que a superlotação e a ausência de cuidados médicos fazem parte do cotidiano deles. 


"O máximo que tem ali é uma salinha médica, mas que muitas vezes não tem enfermeiro. Você pede remédio e não tem, é bastante precário. Nosso maior medo era morrer lá dentro por causa do vírus"

 
Para além dos números, Wallas viu com os próprios olhos a situação de uma cela onde viviam mais detentos do que o recomendado.

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Aos 24 anos, Wallas deixou a prisão no dia 7 de maio de 2020 com uma nova chance, mas em um mundo que talvez não seja o mesmo. Ele agradece a Deus por ter conseguido sair de um lugar onde diariamente precisava lutar pela própria vida. 


"Aquele lá não é meu lugar. Meu lugar é junto com a minha família. Vou conseguir refazer minha vida".

*Relato escrito pelo estudante de jornalismo Enzo Varini

Estava arrumando o equipamento de gravação na sala do diretor da Penitenciária Central de Mato Grosso, em Cuiabá, quando Leonardo entrou algemado. O ar ficou mais pesado, eu estava ansioso. Mas Leonardo Flavio de Souza aparentava tranquilidade, vestindo camiseta de um branco impecável. Por alguns instantes, me equilibrei na instável corda bamba que separa dois abismos diferentes: o de uma entrevista profissional e o de uma conversa despretensiosa motivada pela curiosidade.

A condição para entrevistar um encarcerado da penitenciária era ter a companhia do diretor do presídio, Agno Ramos. Sério, atrás da mesa, observava meus movimentos para montar a câmera, colocar o microfone em Leonardo, como se estivesse onipresente em cada gesto, em cada passo que eu dava, de tal forma como se não houvesse um centímetro daquele terreno em que sua autoridade não chegasse. Mesmo sendo um homem cordial, sua ausência teria contribuído para minha conversa com Leonardo ser mais confortável e, possivelmente, mais sincera.


Sabia que teria que ficar olho no olho com o preso entrevistado. E me surpreendi com um brilho otimista de seu olhar. Talvez por estar prestes a terminar uma pena e deixar as condições em que viveu nos últimos dez anos.

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Leonardo, frente à Enzo, para entrevista | Foto: Enzo Varini

Se Leonardo ganhou um amigo durante o tempo que esteve detido, esse amigo chama-se Deus. Há três anos vive na ala evangélica do presídio. A influência da “palavra do Senhor”, como ele mesmo chama, é perceptível no seu novo estilo de vida. Tudo o que remete a alegria e gratidão, vem acompanhado de um “graças a Deus!”. Então quis saber mais sobre a relação entre presidiários e a fé, sobre a conversão que parece mudar não apenas suas condutas, mas também o propósito das suas vidas. Perguntei sobre a diferença entre internos evangelizados e os não convertidos.


“A mansidão, né. Até porque a gente vai seguindo uma doutrina baseada na doutrina da palavra de Deus, né, isso vai mudando de dentro para fora do ser humano”


E, de quebra, ainda complementou:


“Mente vazia, oficina do diabo, né?”

 

Leonardo não estava apenas me informando tranquilamente sobre a sua vida no presídio durante a pandemia. Estava também me contando sua história com detalhes. Era como se ele arrancasse a própria pele e me emprestasse por alguns minutos para vesti-la e sentir suas vivências. Quando falava sobre sua religião, era como se estivesse permitindo que eu vasculhasse sua mente e entendesse a fundo como Deus emociona, motiva e faz renascer um indivíduo. Essa experiência me fez pensar que, talvez, poucos tenham chegado tão perto de Deus quanto Leonardo. 


Dos momentos mais marcantes de nossa conversa, o que ficou para mim foi a ligação com a família dele. Percebi que ouvir seus relatos despertou minha empatia. Doeu ver de perto a sua liberdade ainda mais limitada por causa da pandemia. Quem nunca esteve com a liberdade cerceada por grades de ferro, como eu, não imaginaria que o ser humano poderia se acostumar a esta condição de vida. Leonardo se acostumou com a vida em banhos de sol limitados e não contava com um vírus para ameaçar a sua tranquilidade no espaço que lhe coube sem liberdade. Ficou sem contato com a família, sem os abraços, beijos, risos e conversas presenciais. Apenas ele, outros detentos entre paredes de concreto e a conformidade.


Leonardo tem um filho de 6 anos que demorou a permitir que ele o visitasse. Não queria submeter a infância do seu filho a uma circunstância tão delicada. Conforme o garoto foi crescendo, decidiu permitir as visitas, pois não achava certo esconder a verdade do garoto porque poderia quebrar a relação de confiança. E isto poderia ser irreversível. Mas agora ele é obrigado a ficar longe do filho. O que o faz se agarrar ainda mais à fé e contar com o que ele diz ser uma ferramenta principal, a “palavra do Senhor”, para amenizar suas ansiedades.


E o que Leonardo pretende fazer quando sair?


“Vixe, sim, né. Mudança de vida. Eu tenho um filho. Eu sou espelho pro meu filho [...] Se eu não quero ver meu filho daqui 11, 12 anos, dentro de um cárcere, eu tenho que começar por mim primeiro. Por quê? Porque senão, com que autonomia eu vou requerer alguma coisa dele?”


Saí de lá com uma lição de vida. Aprender a ver o belo no feio, ter esperança onde houver tristeza. Leonardo estava preso e sem visitas durante a tensão da pandemia, mas mesmo assim estava disposto a conquistar uma vida nova para ele e para aqueles que ama. Ouvir sua história foi como ver uma rosa brotar em solo desértico: caótico devido ao contexto pandêmico; solitário, já que reconstruir sua história foi um processo individual; surpreendente, porque seus relatos mostram uma história de superação.


Levei comigo a certeza de que Gabriel García Márquez estava certo quando disse que o jornalismo é a melhor profissão do mundo. E, de fato, é se você tem um espírito curioso, corajoso e aventureiro. Nada te abre as portas para o mundo da forma que essa profissão faz. Nada te faz enxergar a imprevisibilidade da vida com tanta calma como essa profissão faz. E, quando você está sincronizado com a profissão, nada te deixa mais triste do que a monotonia dos dias. Essa é a beleza da profissão: a beleza que, talvez, nenhum texto seja capaz de resumir.

Um cenário semelhante, porém em proporções menores, já foi enfrentado pelo Brasil. Entre os anos de 2009 e 2010, o país enfrentou o surto de H1N1 que, de acordo com os dados do Ministério da Saúde, deixou mais de 53 mil brasileiros contaminados pelo vírus. Ainda que os dados mostrem que os efeitos da pandemia de H1N1 tenham sido menos severos para a população brasileira, a realidade do sistema carcerário, em ambos os casos, foi sempre desumana, cruel e negligente com os encarcerados.


Emerson Ferreira, que esteve encarcerado por cinco anos, sabe bem o que é uma vida em privação de liberdade. Nascido e criado em Embu das Artes, um município da região metropolitana de São Paulo, no bairro Jardim Santa Luzia, que, de acordo com ele, não oferecia aos moradores nenhuma opção cultural, de esporte ou de lazer. 

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Bairro em Embu das Artes, com 3.800 habitantes, onde Emerson foi criado | Foto: Google Earth/Reprodução 

Ele esteve detido na Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, município da região metropolitana de São Paulo. Atualmente, 2.262 indivíduos estão privados de liberdade nesta unidade. Emerson esteve lá entre o início de 2008 e metade de 2012 e vivenciou o surto de H1N1 dentro do presídio. 


“Quando isso daqui ficar ruim, todo mundo vai morrer e a gente vai sair carregado nos caminhões”. Era isso que Emerson pensava quando via a situação cada vez mais complicada dentro da penitenciária. Ele conta que estar em situação de cárcere durante o surto de H1N1 lhe trouxe intensa preocupação com a morte. Mas, para outros detentos, o vírus não era o principal problema.

 

"Muitos não enxergavam que o vírus fosse mais terrível que a própria prisão, porque a prisão, com vírus ou não, já é um grande problema”


Ele compara o momento em que viveu com a atual pandemia em relação à suspensão das visitas. Naquele período, as visitas de familiares também foram suspensas e todos evitavam ao máximo sair de suas celas. "A corda sempre arrebenta do lado mais fraco", ele defende.


Emerson conta que, por estar em uma penitenciária localizada próxima ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, existia muito medo de que este "inimigo invisível" - como ele mesmo definiu - estivesse mais próximo deles, uma vez que aquela era um local onde diariamente muitas pessoas, de diferentes regiões, circulavam.

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Emerson Ferreira, fundador de projeto social que visa permitir à jovens um futuro mais positivo e longe da criminalidade | Foto: Reflexões da Liberdade

Atualmente, ele é fundador do projeto Reflexões da Liberdade, que trabalha para "fazer com que a sociedade repense os processos que enchem as prisões". A iniciativa social busca, por meio de uma "ação contínua junto às escolas" com palestras e dinâmicas, oferecer aos jovens diferentes possibilidades de vida e uma alternativa à criminalidade.

Os relatos dos personagens apresentados até agora evidenciam que viver atrás das grades não é fácil. Mas, para a mulher, este cenário é ainda pior. Kariene de Carvalho Mantovani viu com os próprios olhos e sentiu na própria pele a dor de ser mulher dentro do cárcere e define esta vivência como sendo um "verdadeiro sofrimento".


Ela esteve, por 10 meses, privada de sua liberdade na Penitenciária Feminina de Guariba, no município do interior do estado de São Paulo e que dá nome à penitenciária. Kariene acompanhou os primeiros momentos de pandemia, mas logo ganhou o direito à liberdade, em março deste ano. 


Só que, com ou sem pandemia, ela explicou que ser mulher no cárcere nunca foi fácil. Dráuzio Varella, em seu livro "Prisioneiras", de 2017, consegue resumir bem aquilo que Kariene e outras 36 mil mulheres vivem no cárcere: "de todos os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas". 


O abandono sempre fez parte dos presídios femininos. Porém, durante a pandemia, mulheres encarceradas passam a sofrer de um duplo abandono: o do Estado e o da família. E Kariene concorda. "Cadeia feminina é conhecida como cadeia carente, né?", diz ao ser questionada sobre o abandono da mulher no cárcere. 


"Se você for em um presídio masculino, você vai ver que lá a fila passa de 800 pessoas. Agora você indo na fila de uma cadeia feminina, você vai ver que lá não passa de 400 pessoas. Então, o que mais tem é menina carente de visita e passando necessidade"


Com a suspensão das visitas, Kariene e outras 925 encarceradas em Guariba ficaram sem os produtos básicos de higiene. Não tinham sabonete, absorvente e nem remédios. E quando a fome chegava, elas não tinham mais os alimentos levados pela família para complementar as refeições. 

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Amanda Caroline Rodrigues é cientista social e se dedica a estudar a situação do cárcere no Programa Justiça Sem Muros, do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC) e concorda com Kariene: mulheres sofrem do abandono no cárcere, mas são maioria tanto nas filas dos presídios masculinos quanto nos femininos.

 
"As filas de visitas dos presídios masculinos são lotadas e, em sua maioria, são formadas por mulheres que são mães, companheiras, filhas, tias, primas, avós; enquanto nos presídios femininos, as filas são muito mais esvaziadas”


Comovida com este cenário, a advogada criminalista Juliana Garcia criou, junto de outras mulheres, o projeto Nós Mulheres que arrecada absorventes para mulheres em situação de cárcere. A iniciativa existe desde 2018 e sua mola propulsora foi uma pesquisa desenvolvida por Juliana na faculdade. Nesta pesquisa, ela teve a oportunidade de ver as condições em que milhares de mulheres vivem nos presídios femininos. Nossa equipe conversou com Juliana e ela nos explicou sobre a situação da mulher encarcerada durante este período de pandemia.

Juliana contou algumas histórias de mulheres que, por não terem a distribuição de absorventes ou por ser em quantidades insuficientes, passaram a usar miolo de pão durante o período menstrual. Na penitenciária em que Kariene esteve, havia a distribuição de absorvente mensalmente, mas em quantidades insuficientes para o ciclo menstrual das detentas.

 
"É um absorvente que você põe e você não consegue dormir porque, se você dormir, é perigoso você acordar toda manchada"

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A advogada Raissa Melo Maia, também pesquisadora no Programa Justiça Sem Muros do ITTC, defende que a situação é ainda pior para mulheres grávidas. Raíssa nos contou o caso da diarista Vanessa Mayara da Silva.

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No presídio de Kariene, essa dificuldade também se mostra presente. E o retrato que a egressa nos conta não é a realidade apenas de Guariba. De acordo com o Infopen, no ano de 2019, existiam 276 mulheres gestantes e 225 lactantes vivendo dentro do cárcere.

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Ainda assim, a falta de condições nas cadeias femininas supera o estrago feito pelo coronavírus no sistema prisional. Segundo o Boletim Epidemiológico da SAP, a taxa de detentas infectadas no estado de São Paulo é de 2%.

Cuecas, calcinhas e blusas são especialidades de Cleidiane Aguilar Calixto desde que começou no projeto de ressocialização, há oito anos, no Centro Prisional Feminino de Colatina(CPFCOL). A costura fez parte da vida da interna que descobriu um novo talento. E talvez ali, enquanto ajeita o tecido, ela se lembre da menina que tinha o sonho de ser costureira.


Porém, as escolhas da vida levaram Cleidiane para outro destino, mas mal sabia ela que esse destino iria mudar positivamente a sua vida. Os sonhos que estavam adormecidos, desabrocham na Cleidiane uma vontade de vencer na vida com dignidade.


“O meu objetivo é alcançar uma meta muito boa lá fora. Essa meta que eu tenho é de abrir um ateliê de costura próprio pra mim. Com o aprendizado, pretendo lá fora alcançar os meus objetivos que é abrir um ateliê próprio para trabalhar na função de costureira”
 

Ela chegou perto de realizar este sonho quando começou frequentando os projetos de ressocialização desenvolvidos pela Secretaria de Estado e Justiça (Sejus), no Estado do Espírito Santo. O programa consiste em trabalho, qualificação profissional e educação. São essas ferramentas que ajudarão o preso em uma vaga de trabalho, quando for garantida a sua liberdade.


Segundo a subsecretária de ressocialização, Regiane Kieper Nascimento, os projetos sociais promovem a reintegração dos internos à sociedade para que eles possuam condições de se regenerarem e, desta maneira, não voltarem mais a cometer o mesmo crime ou outros.


“A sociedade colhe os benefícios com os projetos de ressocialização porque é nesse processo em que aquele detento, que não teve condições e oportunidades na vida, possa ter um recomeço de vida que contribui com uma sociedade mais justa e com menos violência”


Cleidiane tem novos objetivos. “Tive a oportunidade de desenvolver os  meus projetos pessoais com o programa de ressocialização através do costurando o futuro”, declara.

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A interna Cleidiane Calixto atuando no projeto Costurando o Futuro | Foto: Imprensa Sejus

Mas o projeto foi suspenso pela Sejus para preservar a saúde dos internos diante da pandemia. “A pandemia foi algo muito novo. No início de março, era muito temeroso e, quando pensamos em sistema prisional, é preocupante, porque é um mundo muito aglomerado. Diante da situação de calamidade, vimos que a nossa preocupação inicial era com as vidas e, desde então, suspendemos todas as atividades de ressocialização”, afirma a subsecretária de ressocialização, Regiane Kieper Nascimento.


Mas a suspensão durou pouco. Logo as detentas estavam de volta às máquinas de costura produzindo máscaras de proteção para 35 unidades prisionais do Espírito Santo. Cleidiane fez com que o aprendizado adquirido no projeto pudesse salvar vidas na produção de máscaras.

 

"Isso foi muito gratificante pra mim. Porque eu pude ajudar pessoas lá fora, mesmo estando privada da sociedade, eu pude ter o privilégio e a satisfação de dizer que foi uma coisa muito gratificante de ajudar e atuar nesse projeto”


Brunela Vincenzi, professora de Direitos Humanos e presidente da Comissão  Permanente de Direitos Humanos pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), salienta:

 

“Na minha opinião, para justificar a ressocialização, não precisaríamos argumentar de forma utilitarista, como muitos fazem, indicando que assim teríamos redução de criminalidade (em consequência da não reincidência daqueles ressocializados). Teríamos maior oferta de mão de obra para serviços básicos na sociedade e gastaríamos menos com a estrutura carcerária que custa muito aos cofres do país”


Para ela, é um dever do Estado promover programas de ressocialização porque a sociedade colherá os benefícios de ser um interno reintegrado na sociedade com novas perspectivas de vida.

 

“Tem-se, então, que a reintegração da pessoa humana na sociedade é obrigatória para que ela possa se desenvolver plenamente com todos os seus direitos e garantias assim declarados em nossa Constituição Federal e nos tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário. Esse ponto já seria suficiente, no meu entender, para impedir qualquer outro questionamento sobre a importância, necessidade e benefícios para a sociedade sobre a ressocialização”


A prática da costura torna-se prazerosa. Para Cleidiane, cada tecido colorido se transforma em uma roupa. Com delicadeza e precisão, ela começa abotoando a   camisa de xadrez. Com a sua amiga e fiel escudeira máquina de costura, ela vai pouco a pouco alinhando os seus projetos.

O juiz Felipe Rocha Silveira, da Vara de Execuções Penais de São Mateus, assegura:

 

“Trata-se de uma ferramenta importante para a sociedade, por trás de uma oportunidade para um reeducando melhor se adequar após o período de encarceramento e assim como é possível que haja uma efetiva ressocialização”


Se as detentas, que já sobreviveram às condições precárias atrás das grades, saírem vivas desta pandemia, já podem contar com uma habilidade para seguir a vida depois das grades.

A FÉ COMO SALVAÇÃO

 "Isso vai mudando de dentro para fora do ser humano" 

Arte: Pixabay

Uma nova chance, um outro mundo

 "Aquele lá não é meu lugar. Meu lugar é junto com a minha família." 

Wallas Felipe Gonçalves em família | Arte: Júlia Ozorio  

Na ilustração, Emerson Ferreira | Arte: Júlia Ozorio  

UM PASSADO NÃO TÃO DISTANTE

 "Todo mundo vai morrer e a gente vai sair carregado nos caminhões” 

Na ilustração, Cleidiane Calixto | Arte: Júlia Ozorio  

COSTURANDO O FUTURO

 "Pretendo lá fora alcançar os meus objetivos"  

Na ilustração, Kariene Mantovani | Arte: Júlia Ozorio  

A MULHER E

O CÁRCERE

 "Cadeia feminina é conhecida como cadeia carente, né?"