A vida daqueles que cruzam diariamente os muros e portões dos presídios também é duramente afetada pela pandemia. Isso porque, para estes, não existe quarentena ou isolamento social. O trabalho chama e eles precisam estar lá, diariamente, por pelo menos oito horas.

Rogério Leal é agente penitenciário no Presídio Sebastião Satiro, em Patos de Minas, a 400 km de Belo Horizonte, capital mineira.

Muros da Penitenciária de Patos de Minas, onde Rogério trabalha como policial penal | Foto: Google Earth/Reprodução

Muros da Penitenciária de Patos de Minas, onde Rogério trabalha como policial penal | Foto: Google Earth/Reprodução 

De acordo com o Departamento Penitenciário Nacional de Minas Gerais, os funcionários do presídio estão com as escalas de trabalho ampliadas para diminuir a circulação e as chances de contaminação do coronavírus entre detentos e agentes. Além disso, equipamentos de proteção individual, como máscaras, foram distribuídas entre os funcionários. 


Ainda assim, Rogério conta que trabalhar em uma unidade prisional durante a pandemia é extremamente preocupante.

 

"Vendo todas as ocorrências da propagação do vírus, trabalhar em unidades prisionais é bem mais preocupante. Meu medo é levar o vírus para dentro da minha casa e matar aqueles que amo"".


A penitenciária onde Rogério trabalha, segundo dados do Infopen, tem 174 vagas para uma população carcerária de 294 homens em privação de liberdade. É mais de duas centenas de pessoas que se superlotam celas, para o desespero também dos agentes penitenciários.


Rogério conta que é impossível evitar aglomerações.

 

"Nas demais áreas de atuação se pode evitar a aglomeração que é o maior propagador da doença. Já em um presídio ou penitenciária, devido a superlotação, a aglomeração é inevitável. Então o receio e o medo tomam conta"


O agente penitenciário não se esquece do sofrimento de um colega que foi infectado pelo vírus e internado na UTI.

 

"Contraiu o vírus durante plantão hospitalar em que estava acompanhando um detento que havia realizado uma cirurgia eletiva, cirurgia essa que havia sido até proibida pela pandemia. Mas, ainda assim, os gestores. E a Secretaria de Saúde Municipal não pararam e ainda impunham que os servidores fizessem as escoltas"


Em São Paulo, de acordo com Sérgio Bassit, quando algum funcionário apresenta algum sintoma, ele é isolado e observado. “Temos todo um estafe de trabalho que vai observando a evolução dos casos suspeitos”, destaca. Mas, no triângulo mineiro, Rogério explica que só recebeu a máscara ideal após seu colega ser confirmado com Covid-19. A máscara a que ele se refere é a N90, recomendada para aqueles que terão contato com indivíduos suspeitos de contaminação.

 

"Com o passar dos plantões, eles alegavam falta [de equipamentos de proteção individual], então tivemos que levar nossos próprios EPI’s"

Não é apenas na unidade em que Rogério Leal trabalha que a situação está preocupante. As prisões, espalhadas país inteiro, representam um grande perigo para todos que atravessam os muros. Sejam os funcionários, os familiares durante as visitas ou os próprios presidiários que, sem outra opção, são reféns de um ambiente insalubre e degradante.

 

Entenda um pouco mais sobre a situação dos presídios em todo o Brasil:

O medo também faz parte da rotina de outra categoria de profissionais em torno dos presídios: os policiais responsáveis pela ordem e disciplina entre os detentos. Temos três exemplos de estados diferentes. São relatos distintos, mas todos em torno do mesmo pavor de contrair a Covid-19.

Lucas Alves, Weverton Gomes e Emerson Almeida fazem parte dos mais de 110 mil policiais penais no país. São estes profissionais responsáveis pela ordem e disciplina entre os detentos. Lucas, por exemplo, é policial penal em Arraias, um pequeno município com cerca de 10 mil habitantes, localizado no interior do Tocantins, a 415 quilômetros da capital Palmas. Lucas trabalha na Cadeia Pública de Arraias, cuja população carcerária, de acordo com o Infopen, é de 79 indivíduos. O policial afirma que as únicas medidas de segurança passadas pela Secretaria foram o uso de máscaras e álcool gel.

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Weverton Gomes, à esquerda, e Emerson Almeida, à direita | Foto: Arquivo Pessoal

Weverton Gomes Pereira também é policial penal, mas trabalha em Montes Claros, Minas Gerais, no Presídio Regional de Montes Claros. A unidade conta com 1.419 indivíduos em situação de cárcere; destes, 58,3% estão em regime provisório. Weverton conta que sua maior preocupação é com o medo de contaminar sua família com o vírus.


Na Penitenciária Central de Mato Grosso, em Cuiabá, o policial Emerson Almeida tem que ficar de olho em 2.253 detentos. E viu muitos de seus colegas se afastarem a cada dia.


Os três policiais participaram do podcast “Pandemia por trás das grades” e contaram sobre a realidade vivida dentro dos complexos penitenciários. A psicóloga Fabrícia Lentin também participou do podcast e explicou sobre os reflexos psicológicos por trabalhar dentro de um presídio durante a pandemia.


A seguir, o podcast produzido especialmente para esta reportagem multimídia:

O FUNCIONÁRIO

 "Meu medo é levar o vírus para dentro da minha casa e matar aqueles que amo" 

Foto: Dreamstime